"Testemunhos" de Luis Canau ("Cinedie Asia”)
É para mim uma grande honra apresentar o próximo entrevistado. Trata-se de Luis Canau, o mentor do site “Cinedie Asia” (para aceder, cliquem na foto supra), um espaço incontornável no panorama dos amantes do cinema asiático em Portugal. Durante alguns anos, ficou a cargo do Luis as despesas da difusão no meu país, do melhor que se fazia na sétima arte oriental. “On line” desde 1 de Dezembro de 2002, o “Cinedie Asia” é um espaço deveras completo, que não se limita às sempre importantes críticas, mas cujo objecto se expande por horizontes muito mais longínquos. Desde as sempre bem-vindas notícias do outro lado do mundo, até aos relatos na primeira pessoa de importantes festivais de cinema asiático (o Luis já esteve em alguns, na Coreia do Sul e não só) e de entrevistas feitas pelo próprio com protagonistas dos filmes, sejam eles actores, produtores ou realizadores. Todos os artigos, sem excepção, são cuidadosamente elaborados, com uma escrita escorreita, inteligente e apelativa. Alguns deles, inclusive, têm a honra de estarem expostos no campo “external reviews”, que normalmente aparecem na página individual que cada filme possui no “Internet Movie Database” (IMDb).
Se me é permitida uma confidência pessoal, posso dizer, apesar de não ser comparável, que o “Cinedie Asia” verdadeiramente foi a grande inspiração para o aparecimento do “My Asian Movies”. E, apesar de não conhecer o Luis pessoalmente, sempre lhe ficarei grato por isso. Vamos todos pois, torcer para que o nosso ilustre entrevistado de hoje, ponha o “Cinedie Asia” em velocidade de cruzeiro outra vez e o mais breve possível. Principalmente porque se trata de um contributo inestimável para o aprofundar do conhecimento, em língua portuguesa, das cinematografias orientais que todos nós apreciamos. Abaixo segue o resultado da pequena entrevista levada a cabo com o Luis Canau:
“My Asian Movies”: O que achas que distingue genericamente a cinematografia oriental das demais?
Luis Canau: A língua? Bom, a sério, penso que, de um modo geral, se pode falar do que distingue as demais cinematografias de Hollywood, e que é a ausência de uma mentalidade comercial que tende a considerar que se um filme não for desmiolado não pode funcionar nas bilheteiras. "Genericamente", poderíamos ir por aí. De forma algo simplificada, no plano metafórico e correndo o risco de ser um pouco grosseiro, também se poderia falar em prostituição versus afectividade. Mas isto, claro, como tendência.
“M.A.M.”: O que te fascina mais neste tipo de cinema?
L.C. : Além do que referi anteriormente, há um nível de afinidade, cultural, estética, etc. - algo que por vezes pode ser pouco racional. Algum cinema tem um dinamismo invulgar, outro uma sensibilidade e sinceridade raras de encontrar no cinema culturalmente mais próximo. Mas isto também tem que ver com os públicos, sobretudo quando se fala de (melo)drama. É fina a linha entre o que é "sensível" e o que é "xaroposo", e o público ocidental é mais irónico e auto-consciente. Mas é difícil de responder em termos de "tipo" de cinema, pois trata-se, na verdade, de inúmeros tipos.
“M.A.M.”: Tens ideia de qual o primeiro filme oriental que visionaste?
L.C. : Não. Provavelmente algum Kurosawa na RTP 2 há muitos anos. Mas tenho bem presente o terceiro filme de «A Chinese Ghost Story» de Tsui Hark, visto em 90 e pouco no Fantasporto, como a obra que me chamou a atenção para o cinema "popular" de Hong Kong.
“M.A.M.”: Qual o país que achas, regra geral, põe cá para fora as melhores obras? No fundo, a tua cinematografia oriental favorita?
Começou por ser Hong Kong/China, Japão, Coreia,... É difícil escolher uma, ainda que actualmente o cinema de Hong Kong esteja mais "apagado", ou, pelo menos, longe dos esquemas de produção dos anos 80 e 90. Em termos "afectivos" poderia escolher a Coreia, mas é provavelmente no Japão onde se produzem filmes que me fazem sentir mais confiante que vou entrar numa sala de cinema, de forma aleatória, sem qualquer referência - sinopse, género ou realizador -, e esperar ser surpreendido pela positiva. Aconteceu muitas vezes e espero que continue a acontecer.
“M.A.M.”: E já agora, qual o género com o qual te identificas mais? És mais virado (a) para o drama, épico, wuxia, “Gun-fu”...
L.C. : Tenho tido "fases", se assim se pode dizer. Tenho uma atracção particular por cinema de terror, artes marciais/wuxia, animação (que não é exactamente um género), mas não escolheria um género com o qual me identificar.
“M.A.M.”: Uma tentativa de top 5 de filmes asiáticos?
L.C. : Seria sempre diferente de todas as vezes que fizesse um... Esquecendo os clássicos, posso escolher cinco filmes que se destacaram na altura em que os descobri, sem ordem de preferência, e tentando diversificar as origens: The Bride with White Hair (Hong Kong, 1993), Ashes of Time (Hong Kong, 1994), Failan (Coreia do Sul, 2001), Save the Green Planet (Coreia do Sul, 2003), Josée, the Tiger and the Fish (Japão, 2003). Devo dizer, no entanto, que foi uma desilusão "rever" o Ashes of Time na sua forma "redux" (mas não ajudou que o IndieLisboa tivesse apresentado uma betacam e não película).
“M.A.M.”: Realizador asiático preferido?
L.C. : É difícil escolher só um, mas posso destacar o coreano Bong Jun-ho. Menos por «The Host», do que por todos os outros.
“M.A.M.”: Já agora, actor e actriz?
L.C. : Igualmente difícil, não o posso pôr em termos de "preferência", mas vou novamente para a Coreia: Choi Min-sik e Jeon Do-yeon, actores muito completos, e que se entregam completamente aos papéis que desempenham.
“M.A.M.”: Um filme oriental sobrevalorizado e outro subvalorizado?
L.C. : Um qualquer do Tsai Ming-liang para o sobrevalorizado. Subvalorizado pode ser o «Dolls» do Kitano.
“M.A.M.”: A difusão do cinema oriental está bem no teu país, ou ainda há muito para fazer?
L.C. : A difusão do cinema fora de Hollywood não está nada bem, mas os distribuidores não andam nisto para perder dinheiro. O país é demasiado pequeno e os gostos demasiado generalistas. Há muito que "fazer", certamente, para reduzir a quota de Hollywood, e aumentar a estreia de cinema de outras proveniências. Sobretudo o "comercial", porque o "exótico" ou de "arte e ensaio", vai sendo visto. Lá está, é uma questão de públicos.
“M.A.M.”: Que conselho darias a quem tem curiosidade em conhecer o cinema oriental, mas sente-se algo reticente?
L.C. : Não sei bem porque é que uma pessoa que se sente reticente em experimentar algo terá, simultaneamente, curiosidade em conhecê-lo, mas se calhar falamos de pessoas como uns espectadores da recente Mostra de Cinema de Hong Kong de Lisboa que comentavam à entrada da sessão do «Once Upon a Time in China»: "espero que não tenha muitas artes marciais". Será um pouco como a pessoa que pede o único prato picante do menu e depois diz "olhe, mas pouco picante, se faz favor". Não sei se chega a ter "peso" de conselho, ou sequer se quero dar conselhos, mas acho importante não ter preconceitos de origem nem de género, nem seguir uma recomendação preparado para avaliar o filme com a exigência de que tem de ter alguma coisa de "especial" porque é Oriental.
Nota: Para a semana, publicarei mais uma entrevista com um ilustre amante do (s) cinema (s) que todos nós gostamos.











